Em 29 comunidades de Salvador e, em 17 municípios do interior da Bahia, jovens são capacitados a multiplicar ações culturais em seu contexto social e geram movimentos individuais e coletivos pela garantia do direito à cultura, por meio de atividades artísticas. Com isso, contribuem, em uma escala mais ampla, com o desenvolvimento sociocultural de comunidades periféricas, beneficiando diretamente a mais de 10 mil pessoas. Numa ação de mão-dupla, também são beneficiados, uma vez que dinamizam pontos de cultura em suas próprias comunidades, potencializando o desenvolvimento local e alcançando um auto-crescimento.
Aliar a área social à cultural é uma tendência cada vez maior em projetos culturais, como no caso do Formação CRIAtiva de Jovens Dinamizadores, do Centro de Referência Integral de Adolescentes (CRIA), citado no primeiro parágrafo e em atuação há 13 anos. A partir dessa junção, as duas vertentes são trabalhadas de forma conjunta e com objetivos recíprocos, o que gera maior acesso aos bens e ao fazer cultural.
No escopo das atividades do Formação CRIAtiva de Jovens Dinamizadores o foco maior é dado a adolescentes e jovens, além dos moradores de periferias e pequenos municípios, que têm renda média familiar de um salário mínimo. A cultura é sempre o eixo central do programa e ponte de partida para o desenvolvimento dos trabalhos. Com participação no processo criativo-formativo – que envolve atividades como mostras de arte, feiras comunitárias e festivais de arte-educação –, os jovens adquirem experiência de criação, acessam bens culturais e são instrumentalizados para atuar nessas esferas. “Temos alcançado resultados significativos a partir da implementação de processos voltados para a transformação social, por meio da sensibilização pela arte, da construção da auto-estima e da coesão comunitária, alicerçada em valores culturais locais”, afirma Beth Vieira, coordenadora técnica do projeto.
Para o diretor presidente do GIFE (Grupo de Institutos, Fundações e Empresas), Fernando Rossetti, a inserção de aspectos sociais em projetos culturais é muito positiva na medida que estabelece novos parâmetros e traz equilíbrio para as relações sociais. “Hoje há uma tendência de trabalhar a cultura em uma perspectiva mais ampla, não só como espetáculo ou produção cultural, mas com um viés mais antropológico, da cultura como geradora da identidade de um grupo; como cadeia produtiva, que envolve vários atores sociais”, afirma.
Segundo Rossetti, o binômio social-cultural gera maior articulação entre atores e receptores, propiciando um desenvolvimento comunitário das partes envolvidas. “Antes, era só a cultura como espetáculo; agora, ela atua em processos mais complexos e sistêmicos, implicando outras áreas, como a de educação, saúde, meio ambiente, trabalho e geração de renda”, diz.
Nesse sentido, a Unesco (United Nations Educational, Scientific and Cultural Organisation) vem trabalhando para a concretização de uma compreensão mais sólida da cultura como ponto principal para o desenvolvimento social, dos homens e das nações. Na vanguarda desse posicionamento, o ex-diretor presidente do Instituto Ethos, Oded Grajew, já mencionava, em novembro de 2000, em artigo publicado pela revista Exame, a importância do envolvimento das empresas com as questões sociais. “Grande parte da população, quer no Brasil ou no mundo, enfrenta fome, doenças, desemprego, não tem acesso à educação e à cultura, e vive em condições muito precárias. As empresas e seus lideres têm um papel fundamental diante deste cenário”, escreveu Grajew.
Essa responsabilidade inerente tanto aos cidadãos quanto às empresas é vista por Fernando Rossetti, do GIFE, como um dos motivos que levam os projetos voltados à cultura a assumirem causas sociais. Segundo ele, atualmente há um número considerável de “empresas, fundações ou institutos” trabalhando em prol do benefício social. Mas Rossetti faz uma advertência: “esses projetos devem levar em conta, além da formação pessoal e da produção cultural, a forma como a população terá acesso ao conteúdo final produzido, ou seja, a democratização desse acesso para parcelas mais baixas da população. Isso, sem dúvida, também faz parte do desenvolvimento comunitário”, explica.
Controvérsia
Nem todos, porém, vêem com bons olhos a inserção de aspectos sociais em projetos culturais. Produtores e artistas alegam que “forçar” um projeto a ter um viés social apenas para ser aprovado pelas leis de incentivo à cultura, por exemplo, acaba com as características do mesmo e inviabiliza a promoção da arte. “Afinal, as leis são de incentivo à cultura e elencar tantas exigências voltadas para o ‘fazer social” chega a ser um disparate. É preciso ter coerência”, salientou o diretor-geral da Cinemateca Brasileira, Carlos Magalhães, durante o Seminário Perspectivas do Investimento em Cultura, que aconteceu no mês de junho em São Paulo.
Para Fernando Rossetti, no entanto, tal premissa é vital quando se usa lei de incentivo com o intuito de obter dinheiro público em forma de patrocínio. “Como no Brasil prepondera a má distribuição de renda, é fundamental que todo projeto promovido com dinheiro público articule formas de conciliar ações sociais. Porém, o que se vê é uma série de projetos mal feitos com uso de incentivos fiscais, que não proporcionam acesso à população”, conta. Rossetti acredita que os artistas devem ter liberdade na produção e criação cultural, mas que a contrapartida social deve ser calculada. “A pergunta que devemos fazer é se o objetivo de um projeto é gerar apenas um produto cultural ou gerar cultura para a sociedade”, diz.