Desde os anos 80 pesquisando os processos ligados à memória e, desde 1991, à frente do Centro de Memória da Unicamp, Olga Rodrigues von Simson é uma das sumidades brasileiras no tema. Nesta entrevista, Olga traça a relação entre memória e cultura e discorre sobre os principais conceitos e tendências em processos de memória discutidos no seminário em que esteve presente essa semana, no Canadá.
Boletim da Democratização Cultural – O que é memória?
Olga von Simson – Segundo o senso comum, a memória seria algo homogêneo e único. Mas quem trabalha com o tema sabe que é por excelência multidisciplinar e que, nesse sentido, cada disciplina tem uma função humana primordial. A memória é a possibilidade de viver uma experiência, gravá-la e transmiti-la às novas gerações. Foi por meio dessa faculdade que o homem acumulou conhecimento, repassou a outras gerações e construiu toda a cultura e saber a respeito da realidade.
B.D.C. – Estamos falando de uma memória seletiva?
O.V.S. – Hoje sabemos que existe uma memória individual seletiva que permite gravar o que é importante. Mas, tão importante quanto o processo de memória é o processo de esquecimento que faz a gente ser capaz de armazenar conhecimento.
B.D.C. – Como memória e cultura se entrelaçam?
O.V.S. – A cultura é o resultado do processo de socialização que mostra que somos formados desde a gestação pelo grupo social no qual estamos inseridos. A família, a escola, a opção religiosa, a linha ideológica, enfim, as várias instituições sociais nas quais vamos nos integrando e por meio das quais vamos construindo o capital cultural que nos permite fazer a seleção da memória. Essa ligação é fundamental para a constituição dos acervos porque gera especialização. Todas as memórias têm um processo individual e, a partir dele, podemos perceber os grupos sociais. A partir de uma história de vida podemos apreender um pouco sobre a sociedade.
B.D.C. – Como funciona esse processo de memória individual?
O.V.S. – A memória individual é sempre diferente. Cada um lembra de um jeito diverso, segundo o que lhe interessa e o que amealhou durante a experiência. A seleção da memória nos faz perceber o que é útil e importante para alguém. E esse processo contínuo de seleção só é possível por conta do filtro da cultura. Mas há também uma memória coletiva que é aquela formada pelos fatos e aspectos julgados relevantes e que são guardados como memória oficial da sociedade mais ampla. E há ainda a memória compartilhada.
B.D.C. – Qual a diferença entre a memória coletiva e a memória compartilhada?
O.V.S. – A coletiva é a que a sociedade escolhe como sendo importante para divulgar nos lugares de memória, que são os arquivos, bibliotecas, monumentos, obras de arte...
B.D.C. – Mas no caso de uma obra de arte, não teríamos uma memória individual a serviço de uma memória coletiva? Se, por exemplo, um artista pinta Canudos, essa não é a visão dele sobre o evento histórico que acaba incorporada pela sociedade?
O.V.S. – Depende. Tanto o artista pode pintar Canudos sob encomenda de uma memória oficial quanto pode dar a sua visão que mostra Canudos como um genocídio e nunca ter a obra aceita e incorporada ao discurso oficial. É a questão de ser aceito ou ser relegado. O que é aceito é aceito pelo domínio de grupos de poder econômico e político. No Museu do Ipiranga tem uma tela que mostra D. Pedro impecável em um bonito cavalo branco quando, na verdade, ele subiu de Santos para São Paulo em uma mula e com disenteria. Quando ele deu o grito da independência estava sofrendo com problemas intestinais, mas isso não foi representado.
B.D.C. – E onde entra a memória subterrânea?
O.V.S. – A memória subterrânea ou dos grupo marginais é passada entre as famílias e agrupamentos que não constam da memória oficial. Essa memória só vem à tona por meio de um movimento de rebelião ou dos trabalhos da metodologia da história oral, com o registro. Eu trabalho com o carnaval negro paulista que não teria menção não fosse a minha pesquisa. O pesquisador tem uma porta para registrar isso e tem consciência de que existem memórias subterrâneas válidas de conhecimento a partir do processo de compartilhamento de memória.
B.D.C. – Esse compartilhamento gera fortalecimento da comunidade?
O.V.S. – Desse compartilhamento, entre comunidades marginais e pesquisador surge o processo de empoderamento. Os resultados da pesquisa retornam aos grupos estudados e podem ser incorporados a uma luta social. No Canadá esse processo é conhecido como sharing authority – dividindo autoridades – que é o grande mote no mundo de pesquisa sobre memória hoje. Os pesquisados ajudam a escolher até os subtemas, e existe um trabalho com a imagem, com fotografias antigas, vídeos, que permite a devolução da pesquisa de uma forma perceptível, clara. Com isso, acontece, sem dúvida, o fortalecimento da identidade cultural desse grupo.
B.D.C. – Qual a grande diferença entre o processo de resguardo da memória coletiva conduzido por integrantes dessa memória e o processo feito por profissionais em arquivos, museus e instituições?
O.V.S. – A memória é um espaço de luta política e social. A pesquisa em memória deve ser feita sempre com os olhos do presente. Buscamos informações no passado para entender melhor os problemas de hoje e pensar soluções adequadas. O estudo sobre a memória não pode envolver romantismo, nostalgia porque é um enfrentamento dos problemas atuais. Antigamente, os velhos de uma comunidade eram os detentores do saber coletivo e preparavam as novas gerações. Com o progresso científico e cultural, nos séculos18, 19 e 20, há um acervo cultural documental enorme e não é mais possível que os indivíduos cuidem dele. Surgem então os primeiros arquivos no século 18 e as grandes bibliotecas, no século 19, e percebe-se que é preciso formar profissionais para o registro. Trabalhamos com fragmentos de memória e precisamos de profissionais que forneçam ao pesquisador o maior número de fragmentos possível para uma visão de conjunto. A metodologia da história oral é rica, mas precisa ser associada a outros recursos, como as imagens que são detonadoras da memória.
B.D.C. – Nesse sentido, qual a importância do Centro de Memória da Unicamp?
O.V.S. – O Centro de Memória é uma instiutição-memória que realiza um trabalho ligado à história social de Campinas e região, ou seja, a região que se desenvolveu no Estado de São Paulo a partir da importância e relevância desta cidade como grande pólo econômico, social e cultural surgido no século 19, com o sucesso da cultura cafeeira. O trabalho do Centro de Memória envolve vários setores do conhecimento, como antropologia, sociologia, história, geografia, arquitetura, educação e cultura. O Centro de Memória ajuda a conservar e reconstituir fragmentos de memória. Para isso, temos uma biblioteca com livros raros, uma emeroteca, arquivos históricos, arquivos imagéticos, laboratório de história oral e laboratório de recuperação de documentos.
B.D.C. – E qual a importância da memória para o processo de democratização cultural?
O.V.S. – O resgate e apropriação da memória contribui para a democratização cultural e para a formação de novas gerações. Sabemos hoje o quanto é importante conhecimentos como a trajetória familiar. Pesquisas sociológicas efetuadas na Europa mostram que a falta dessa memória faz com que jovens pratiquem violência. Conhecer a memória individual e coletiva é o início de uma cidadania responsável.