Quem conhece a plataforma de políticas públicas culturais do México hoje não imagina que na década de 20, o País incluía ingressos para o cinema na cesta básica, estudava, produzia e distribuía filmes próprios. Essa realidade, que ficou para trás com o advento do neoliberalismo, volta à cena em debates e reflexões impetradas por intelectuais como Ana Rosas Mantecón, antropóloga e coordenadora de um grupo de trabalho sobre consumo cultural do Conselho Latino-americano de Ciências Sociais, que desejam a democratização do acesso à cultura.
Boletim da Democratização Cultural - Como foram configuradas as políticas públicas culturais no México?
Ana Rosas Mantecón – As políticas culturais do México mudaram ao longo de todo o século 20, quando o Estado mexicano desenvolveu políticas amplas, estabelecendo um aparato cultural extenso por todo o país. Mas essa atuação se concentrou fundamentalmente em duas áreas: o patrimônio e as artes. O plano também desenvolveu políticas culturais em dois campos da indústria cultural, o cinema e a indústria editorial. No cinema foi criada uma política equivalente a de Cuba e os dois países eram considerados os únicos detentores de políticas estatais integradas. No México, o Estado financiava estudos sobre cinema, companhias distribuidoras, companhias produtoras, escolas de cinema, e se preocupava também com a questão do acesso. O preço dos ingressos era acessível e, como a arte constava da cesta básica, não podia ser aumentado. A ida ao cinema era considerada tão importante quanto a própria alimentação, o que dá uma idéia do significado dessa época para a cultura nacional, não somente para o nível urbano.
B.D.C. – Quando aconteceu a mudança de postura do Estado com relação à cultura? Que fatores pesaram?
A.R.M. - Nos anos 80, o Estado mexicano passou a adotar posições de mercado neoliberais e, com isso, vendeu os estúdios, as salas de cinema e os preços dos ingressos ficaram mais caros. O estado teve uma participação peculiar nesse processo de mudança e voltou suas políticas culturais para o patrimônio.
B.D.C. – Foi nesse momento que as indústrias culturais foram consolidadas?
A.R.M. – Sim. E o problema é que boa parte do mundo da cultura passou a ser influenciada pelas indústrias culturais e o Estado se enfraqueceu, perdendo a capacidade de reger essa área. As leis de cultura, por exemplo, existem de maneira separada pelas redes de comunicação; campos totalmente integrados que, no entanto, têm uma legislação específica dissociada.
B.D.C. – A iniciativa privada, para além de exercer o papel de mecenas, acabou tomando o controle no México?
A.R.M. – Essa é a nova divisão do trabalho da cultura. O Estado cuida de poucas áreas e o Mercado se encarrega do resto.
B.D.C. – Nesse caso, a iniciativa privada supre as carências do Estado?
A.R.M. – Creio que a participação privada é muito importante. No cinema, por exemplo, já na década de 70 a indústria cinematográfica estatal estava em declínio. As salas de exibição foram abandonadas, as pessoas deixaram de frequentar e os filmes nacionais eram de baixíssima qualidade, voltados para um público popular que exigia muito pouco. Tudo indicava que a prática de ir ao cinema acabaria. Mas algumas mudanças na legislação permitiram que o setor privado pudesse intervir, o que fez renascer a indústria cinematográfica. Nesse caso, o mercado atuou positivamente. O problema é que existem situações que não podem ser deixadas a cargo do mercado, exigindo a participação estatal. O tema da diversidade atua claramente nesse ponto. O mercado busca o lucro e não se importa com critérios de diversidade e desenvolvimento cultural, a menos que seja rentável. É por isso, que é necessária a criação de uma nova modalidade de intervenção estatal que regule o tema dos direitos culturais. Com isso, diminuímos a voracidade do Mercado e garantimos que sejam exibidos filmes que não só os norte-americanos.
B.D.C. – Como é tratada a questão da formação de platéias?
A.R.M. – Hoje, só vão ao cinema as classes media e alta, porque além do preço, as salas de exibição estão localizadas nos centros comerciais, em zonas de alto consumo. Mas agora, em busca de novos mercados, a iniciativa privada está expandindo seus negócios para zonas populares que nunca tiveram salas de cinema. O problema é que a oferta é de má qualidade e se limita a três ou quarto títulos comerciais norte-americanos. Falta diversidade.
B.D.C. – Em que medida essa falta de diversidade também afeta as classes altas?
A.R.M. – Quando você só vê filmes norte-americanos, acaba tendo dificuldade de absorver histórias mais lentas, narrativas diferenciadas e temas complexos. Nesse sentido, acho que o Estado é cúmplice de uma formação simplificada e de estarmos perdendo a capacidade de entender a diversidade.
B.D.C. – E existem iniciativas civis, comunitárias que se oponham a essa ordem?
A.R.M. – As iniciativas comunitárias têm grande força no México, sobretudo no campo dos museus. A homepage do Conselho Nacional para a Cultura e as Artes tem uma série de mapas, um verdadeiro atlas de ofertas de museus comunitários espalhados por todo o país.
B.D.C. – Imagino que a maior parte desses museus esteja ligada aos sítios arqueológicos. Como o Governo lida com essa situação?
A.R.M. – A estrutura e o aparato cultural mexicano são muito centralizados e a legislação é antiga, não respondendo às demandas atuais. Então a abertura para a participação das iniciativas comunitárias é um problema para as próprias estatais. No caso das zonas arqueológicas, existem mais de 200 mil mapeadas e o Estado só consegue cuidar de 2 mil delas. A desproporção é enorme. E o que acontece com as zonas inativas? São saqueadas o tempo todo sem que ninguém possa fazer nada. Se o Estado incentivasse a participação da comunidade seria muito mais fácil, porque elas seriam responsáveis pelos sítios e ainda poderiam gerar sustentabilidade.
B.D.C. – O fato de se tratar de uma cultura milenar exerce alguma influência sob as políticas públicas?
A.R.M. – Hoje, há uma grande contradição no campo das políticas culturais. Ao mesmo tempo em que reconhecemos a criatividade de uma cultura milenar, diversa, não investimos em políticas que estimulem e desenvolvam esse aspecto. Há uma idéia errada de que a cultura se desenvolve sozinha. A isso estão associadas as questões inerentes ao processo de globalização.
B.D.C. – Você pode exemplificar?
A.R.M. – No caso do cinema, quando foi criado o Tratado de Livre Comércio, os canadenses se opuseram aos termos apregoados, afirmando que o cinema canadense não podia ser negociado sob os mesmos critérios que regiam o comércio de tomates e batatas. Eles foram firmes ao defender que o cinema estava ligado ao patrimônio e criaram uma legislação especial de exceção cultural que protegeu sua cinematografia. No México, o cinema foi incluído na cesta do entretenimento o que o aprisionou ao monopólio da distribuição. Com isso, não há discussão e o Estado não pode intervir.
B.D.C. – De que modo a cultura norte-americana influencia o consumo cultural mexicano?
A.R.M. – Curioso, porque hoje, no México, fala-se muito sobre a mexicanização da americanização. A verdade é que os processos públicos são diversos e o discurso do próximo e do distante tem que mudar. Muitas políticas culturais tradicionais cresceram com esse marco de proteger suas riquezas contra a influência do vizinho. Tudo isso mudou e o os consumidores culturais demandam políticas contrárias à questão da invasão cultural. Mas é bem verdade que países como o México recebem muito mais influências do que enviam. O fluxo não é igual para todos. E, aí sim, precisamos pensar em políticas culturais que estimulem a circulação da diversidade. Na América Latina, por exemplo, esses fluxos estão suspensos. Precisamos encontrar formas de compartilhar a produção cultural para ampliar nossas janelas.