Como tantos outros jovens norte-americanos que estiveram na Segunda Guerra Mundial, Jerome Hausman iniciou sua caminhada pelo universo artístico subsidiado pelo governo de seu país. A vivência universitária fez com que o rapaz, que pretendia atuar como retratista, trocasse os pincéis e tintas pelos tablados e desenvolvesse toda uma teoria sobre o processo de arte-educação que transformaria a concepção sobre a importância do ensino da arte. Jerome tornou-se então uma referência, tendo presidido a Faculdade de Mineápolis e atuado como professor da Faculdade de Arte de Massachusetts. Também editou publicações, como a National Art Education Association Research Yearbook, o Studies in Art Education, a Art Education e o jornal da NAEA – National Art Education Association. Por sua atuação na área, Jerome recebeu, em 2001, o prêmio de arte-educador do ano, da NAEA. Nessa entrevista, o arte-educador fala sobre a importância da educação para as artes e reflete sobre o impacto da globalização nos processos educacionais.
Boletim da Democratização Cultural - No artigo Studies in art education: reflections on some early editorials, você diz que, ao rever seus textos, quase trinta anos depois, tem uma sensação de estar repetindo a mesma fala, os mesmos conceitos e discutindo o mesmo argumento sobre o ensino da arte como uma referência à própria arte. O que aconteceu nesse tempo?
Jerome Hausman – Quanto mais velho fico, mais me dou conta de que estou lidando essencialmente com a mesma idéia, apesar de a própria arte estar em constante modificação. Mas a arte é uma expressão de idéias, de sentimentos e de realizações, uma experiência transacional. É a capacidade humana de pensar, de sentir, de refletir, de imaginar e de criar. Mesmo após a passagem do tempo, ainda estou ligado à tese que faz referência à arte não como objeto e evento, mas como a natureza da experiência, a parte transacional, dinâmica, que gera encontros individuais, percepção e vivência.
B.D.C. - Por que a arte-educação é tão importante hoje?
J.H. – Porque enfatiza a qualidade de vida individual, comunitária e ambiental. A arte-educação ajuda o aluno a visualizar e avaliar o que vê, ampliando sua percepção. A mente preparada vê mais do que a despreparada. Mas devemos cuidar para não cairmos na armadilha das generalizações, presentes em frases, títulos de livros e congressos. Como arte-educador em um mundo globalizado, é preciso entender as implicações dos termos complexos estabelecidos. O foco da educação foi e sempre será o ser humano, suas relações e formas de lidar com a experiência de vida. A criação, a expressão artística, precede o uso da própria palavra arte.
B.D.C. – Você acha que a arte-educação tem o poder de exercitar a imaginação e ajudar o estudante a fazer novas conexões, transcender as limitações prévias e superar os padrões estabelecidos?
J.H. – A educação não pode se limitar à contemplação da obra de arte pendurada em museus e galerias. Há mais fora do museu do que dentro dele. A minha vida foi dedicada à formação de artistas e eruditos da arte. Hoje, vivemos num ambiente visual ligado de forma intrínseca à economia e à cultura. Precisamos conviver com esse mundo visual e educar o aluno para perceber e avaliar os entornos visuais, gerar novas formas de pensamento e criação. Cada indivíduo tem um valor potencial e o seu destino é desenvolver essa potencialidade no contexto de uma sociedade liberal, o que amplia os modos de percepção e as sensações. Assim, a partir da arte-educação, o aluno é convidado a participar de atividades que cruzem visão e sensação e que encorajem conexões múltiplas. A arte é um conceito aberto e para mim o grande prazer está no questionamento.
B.D.C. – Como o fato de artistas jovens aprenderem arte em universidade afeta o fazer artístico?
J.H. – Por muito tempo, para aprender arte era preciso se tornar aprendiz de grandes artistas, servindo a eles, seja nos serviços da casa, seja no trabalho de arte propriamente dito. O aprendiz configurou os primórdios do aprendizado da arte, que passou por um longo processo de transformação. Há muitos anos, quando eu era diretor da Escola de Arte da Faculdade de Ohio, conheci um professor de história da arte que foi ao Paquistão interessado nas cerâmicas produzidas por lá. Nessa viagem, ele se impressionou muito com o trabalho de um artista específico e resolveu ir até a cidade desse artista para conhecê-lo. Quando chegou e perguntou onde poderia encontrar “o artiista”, todos disseram que não o conheciam, simplesmente porque não sabiam o significado da palavra “artista”. E ele mudou a pergunta, querendo saber quem fazia a cerâmica. Então, foi entendido, e com o endereço em mãos foi encontrar o artista. Ficou impressionadíssimo com o que viu: um homem trabalhando a argila em um torno rudimentar, feito de pedra e pau. E meu amigo perguntou ao homem: “Quem te ensinou a fazer isso?”. O homem olhou para ele desconfiado e disse que ninguém o havia ensinado. Meu amigo insistiu: “Mas como você aprendeu?”, e a resposta foi “Eu nunca aprendi”. “O seu pai fazia cerâmica?”, retrucou o professor. “Sim. O meu pai, o pai dele, o pai do pai dele... Toda a minha a família faz cerâmica”. Então, quando o meu amigo me contou essa história, ficamos refletindo sobre a naturalidade desse aprendizado. Perguntar “quem te ensinou a fazer arte?” significava, naquele contexto, o mesmo que perguntar ”quem te ensinou a respirar?”. A arte fazia parte da vida daquele homem de uma forma tão natural que ele nem conseguia pensar o que era ensino.
De um outro ponto de vista, durante o século 19 foram inauguradas muitas escolas que incluíam o desenho no currículo com o objetivo de capacitar mão-de-obra especifica, com ótima coordenação motora, para trabalhar nas fábricas. Dando um salto na história, no fim da Segunda Guerra Mundial, o governo norte-americano ofereceu aos jovens recém-chegados da guerra a opção de estudar em faculdades. Vários jovens escolheram estudar arte, e eu me incluo na lista, impulsionando a ampliação das faculdades e o crescimento de um mercado específico. Depois de graduado, resolvi ensinar arte, assim como muitos resolveram. Quer dizer, a humanidade evoluiu e precisou readequar seus conceitos e práticas, e o ensino da arte passou por esse viés.
B.D.C. – Como a globalização impacta o processo de arte-educação?
J.H. – Mais ou menos 50 anos atrás, conheci Marshall McCune, que publicou um livro sobre as projeções da invenção da imprensa, e fiquei impressionado com sua tese. Também li os escritos de Walter Benjamin sobre a arte na era da reprodução mecânica. Retorno a esses nomes e temas para mostrar que as mudanças acontecem naturalmente, como uma evolução, mas que agora elas estão num ritmo de progressão geométrica, e não aritmética, como no passado. Para muitos, a globalização restringe-se a um fenômeno econômico, mas ela vai além disso. As mudanças tecnológicas são impactantes no que somos e fazemos e acontecem mais rápido que o nosso entendimento. Trata-se de uma dinâmica irreversível que afeta a vida das pessoas, gerando novas atitudes e visões e criando novas ambigüidades. O nosso desafio hoje é encontrar a ponte entre a identidade pessoal e a coletiva.
B.D.C. – E como fica a arte nesse processo?
J.H. – A globalização também gerou mudanças incríveis na forma e nos meios de fazer arte, na expressão e realização de idéias. Há, por exemplo, uma nova paleta de realidades visuais que incitam todo tipo de imagística e geram novas interpretações. A arte transformou-se em um novo instrumento de organização da consciência. Os pintores não se sentem mais confinados a telas e tintas, utilizam todo tipo de material; os músicos vão além dos instrumentos tradicionais e assim por diante. A verdade é que os jovens do mundo atual têm uma variedade maior de possibilidades de expressão e realização de suas idéias e sentimentos. O que é importante, mas não é melhor do que as formas anteriores. A expansão dos meios criativos não significa uma qualidade maior de valores e significados.
B.D.C. – Como poderiam os profissionais da era das novas tecnologias ser educados em arte para desenvolver performances no mundo global?
J.H. – Estamos todos interessados na capacidade humana de pensar, sentir, refletir, imaginar e criar, e esses termos são adequados tanto ao engenheiro, ao matemático quanto ao artista. Houve um momento em que não havia a palavra arte e, ainda assim, produzíamos arte. As obras de arte e o universo das formas e eventos criados pelo ser humano são fundamentais à vida. Hoje, lidamos cada vez mais com máquinas, mas um tempo atrás elas eram objeto de encantamento, inclusive de artistas. Os futuristas, por exemplo, viram a beleza das máquinas. Precisamos ter em mente que a dimensão estética está potencialmente presente em qualquer atividade humana. No caso da arte-educação, existe um convite para trazer o componente estético para a vida cotidiana, trata-se de enfatizar o belo como um aspecto da vida.
B.D.C. – Qual é a atual configuração do universo artístico?
J.H. – O mundo artístico atual inclui imagem gerada por computador, arte ambiental, conceitual... Mas as formas artísticas não se encaixam em categorias estanques; a arte encontra formas diferentes de pensar, imaginar e refletir sobre as vivências. E o ensino da arte mudou de uma orientação européia masculina para algo mais amplo.