Ele é consultor de políticas públicas do livro e leitura da Organização dos Estados Ibero-americanos (OEI) para a Educação, a Ciência e a Cultura, desde 2006. O posto alcançado por Galeno Amorim no órgão internacional é o resultado de anos de dedicação ao tema. Aos 44 anos, Galeno acumula em sua carreira a autoria de dez livros, a maioria deles voltada para o público infantil; a co-autoria dos títulos Políticas Públicas do Livro e Leitura , editado pela OEI-Unesp, Os Desbravadores, pela Palavra Mágica e Histórias das Práticas de Cidadania, pela Editora Contexto; além de ter presidido entidades como o Comitê Executivo do Centro Regional de Fomento ao Livro na América Latina e no Caribe (Cerlalc) e o Conselho Diretivo do Ano Ibero-americano da Leitura (Vivaleitura). A paixão pela causa do livro e da leitura também moveu o jornalista a criar as organizações não-governamentais de fomento à leitura Fundação Palavra Mágica (2000), Fundação Feira do Livro (2003) e Fundação Instituto do Livro (2002).
Em entrevista concedida ao Boletim da Democratização Cultural, Galeno reflete sobre o papel e a situação da leitura e da literatura no Brasil de hoje.
Boletim da Democratização Cultural - O acesso à literatura, ao texto literário, pressupõe o acesso à leitura. Como formar um público leitor de literatura?
Galeno Amorim - Esse primeiro contato com o mundo mágico da literatura deve começar em casa, nos primeiros anos de vida. Ouvir o pai, a mãe ou qualquer outro adulto da casa ler um livro de histórias infantis ou contar um bom causo pode ser o primeiro e importante passo na formação de um bom leitor de literatura. Mais tarde, na escola, esse universo terá que continuar a ser ampliado e enriquecido. Então, será a vez do professor pegar esse pequeno leitor em construção e conduzi-lo, segurando firme suas mãos, pelos caminhos e descaminhos encantados dos livros de literatura. Em cada etapa, há que se ter zelo com aquilo que será apresentado. Se num primeiro momento, ele precisa ser cuidadosamente conduzido pelas mãos, mais tarde será seduzido e levado às suas próprias descobertas. É bem verdade que, ainda assim, as políticas públicas, os meios de comunicação e as organizações da sociedade que se preocupam com o tema terão muito o que fazer, buscando aproximar autores, obras e leitores, além de trabalhar para que os livros e a literatura estejam no lugar que lhes são devidos no imaginário coletivo.
BDC - Qual a importância da literatura para a construção do indivíduo?
Amorim - A literatura é o que conduz o sujeito leitor para muito além da mera informação ou mesmo do conhecimento. É ela que nos leva a ter contato e a vivenciar as mais diferentes e inesperadas situações pelas quais passa o ser humano. E é assim, com a experiência do outro e fazendo as conexões com a nossa própria, que desenvolvemos nossa capacidade de pensar, articular idéias, planejar nossos próprios vôos e agir. Por isso, a literatura tem uma capacidade extraordinária de emancipar o indivíduo e dar a ele a autonomia necessária para viver a sua vida.
BDC - A exigência de uma postura ativa no ato da leitura do texto literário pode ser um fator de resistência ao hábito?
Amorim - Tudo o que exige um pouco mais de concentração e esforço tende a nos afastar de determinados objetivos. Acontece com praticamente tudo em nossas vidas. Aquilo que nos chega sem o menor esforço e sem exigir um envolvimento mais direto e ativo, pode, num primeiro momento, ter a preferência naquelas situações em que estamos dominados pelo cansaço ou simplesmente pela inação. Mas, igualmente, é o que também nos leva mais facilmente ao tédio. Assim, ao nos seduzir e nos encantar, o texto literário igualmente nos amarra, como numa relação de amor verdadeiro.
BDC - Em que medida a experiência da literatura pode ser transgressiva?
Amorim - Na medida em que leva o leitor a atravessar os campos da própria experiência vivida e adentrar, sem qualquer proteção, por mares nunca dantes navegados, sem saber aonde isso vai dar e como ele sairá ao final da jornada.
BDC – E como está a literatura nacional hoje?
Amorim - O Brasil é um celeiro de grandes escritores, desde os poetas parnasianos e modernos até nossos autores contemporâneos. Ao contrário do que acontece na música e, mais recentemente, começa a ocorrer no cinema, nossa literatura só não foi ainda descoberta. Mas isso é apenas uma questão de tempo. A cada ano, bons escritores brasileiros são traduzidos em diferentes países e em várias línguas. Alguns ganham prêmios importantes. Outro vendem ou acumulam prestígio. O Brasil tem boas histórias e, sobretudo, uma engenhosidade única na arte de contar. Isso é fundamentalmente extraordinário para se produzir uma literatura de qualidade. Além dos nomes consagrados, vivos ou mortos, há uma formidável geração de novos e bons autores vindo por aí, para todos os gostos. Ainda vão dar o que falar pelo mundo afora.
BDC – Já que estamos falando sobre escritores, que papel essa figura exerce por meio do aparelho literário?
Amorim - Engajado ou não, politizado ou não, o autor de literatura instiga, cutuca, provoca e leva o sujeito leitor a, no mínimo, pensar, reagir, se incomodar, aprovar, recusar. Se ninguém é o mesmo depois de ler uma obra literária, uma obra certamente jamais será a mesma depois de ter sido lida, bolinada, apalpada e remexida primeiro por seu criador, depois por seus leitores. É esse, creio, o papel primordial do escritor.
BDC – No texto Quést ce que la litterature, Sartre diz que “um livro começa a existir não quando um autor termina sua redação, ou quando o editor o encaderna, mas quando o leitor fecha a sua última página” (Les Temps Modernes, Ed Gallimard). Num país de iletrados, como fica essa proposição?
Amorim - O livro vai levar muito mais tempo até cumprir todos seus estágios de vida. E o país, por sua vez, mais ainda para tirar dele tudo o que precisa para si e para seu povo.
BDC – Na sua opinião, que lugar a literatura ocupa na construção de uma cultura brasileira?
Amorim - A literatura no Brasil funciona como uma espécie de elo a interligar as mais diferentes manifestações artísticas e culturais do nosso povo. Ela está no cinema, no teatro, na dança, na música, na arquitetura, na televisão e por toda parte. Isso com relação à produção. De outra parte, um bom leitor de literatura logo pode se tornar um bom apreciador de cinema, teatro, música, dança, pintura e todas as outras estéticas. Mais importante, no entanto, é a sua contribuição à construção da identidade nacional, na medida em que registra costumes e o modo de ser dos brasileiros de cada época, reconhece e preserva suas práticas e ainda provoca uma rica e saudável interatividade entre as diversas linguagens, que é o que gera a cultura da nação.
BDC - Quem é o leitor de literatura no Brasil? O que o diferencia dos leitores do mundo?
Amorim - Todos os 26 milhões de brasileiros com mais de 14 anos de idade descobertos em 2001 pela pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada pela Câmara Brasileira do Livro, são, a rigor, os leitores de literatura do País. Somados, é claro, a outros milhões de crianças e adolescentes leitores que não foram fichados no estudo, mas que, assim como qualquer outro, e independentemente de sua idade, situação econômica ou formação cultural e acadêmica, também lêem literatura e interagem com os textos de um jeito próprio à faixa etária e experiência de vida que acumularam. Há, ainda, os leitores dos jornais, revistas, gibis, internet, materiais didáticos e textos de trabalho que podem, naturalmente, ser leitores de literatura, mas não necessariamente. É assim que aqui, como em qualquer parte do mundo, se compõe o contingente de leitores de literatura. Há, é certo, uma diferença substancial em países desenvolvidos: lá a massa de leitores em geral - parte da qual transforma-se em leitores de literatura - é muito maior que a nossa. Assim, há mais gente lendo mais. E mais gente lendo mais literatura.
BDC - Quais as implicações culturais e sociopolíticas para um país que não lê?
Amorim - Para início de conversa, é um país mais pobre. Em todos os sentidos. Não ter sequer informações básicas sobre o próprio país, sobre o mundo em que se vive ou sobre as pessoas que o cercam e que o precederam; afastar possibilidades concretas de compartilhar de um conhecimento que já foi acumulado pela humanidade; e mais ainda, abrir mão de construir seu próprio universo pessoal e coletivo propiciado pelo ato de ler é, decididamente, relegar ao deus-dará a construção do próprio destino. É como abrir mão da própria inventividade e de sua capacidade de empreender, contentando-se com outras possibilidades menores de acesso à informação, ao conhecimento. Além, naturalmente, de atrasar imensamente seu próprio cronograma de vida. Isso vale tanto para o indivíduo como para o conjunto deles, que é o que, somado a outros aspectos socioculturais, constitui uma nação.
BDC - Como se relaciona a questão da leitura com o analfabetismo?
Amorim - O analfabetismo e, mais ainda, o analfabetismo funcional são os grandes entraves para a leitura. Isso se dá, ainda que em proporções diferentes, no mundo todo, embora seja mais grave nos países pobres e em desenvolvimento. No Brasil, três quartos da população jovem e adulta estão simplesmente incapacitados para o ato de ler. A cada ano, o Estado desembolsa milhões de reais em programas de alfabetização para, meses depois, assistir, estarrecido, essas mesmas pessoas reingressarem no gigantesco exército de não-leitores, que também poderia ser chamado de sem-livros ou, ainda, de os sem maiores perspectivas de vida. Engana-se quem pensa que o maior problema reside no preço do livro ou mesmo na escassez de boas bibliotecas e livrarias. Embora tudo isso seja verdade o problema maior está, sem dúvida, na absoluta falta de habilidade para a leitura - e, aí sim, em seguida vem a necessidade de estratégias para tornar a leitura acessível e permanente, e fazer com que as pessoas sejam estimuladas para tal.
BDC - O que mudou em termos de estratégia para formar leitores nos últimos dez anos? Qual a importância de iniciativas paralelas, nesse sentido?
Amorim - Fora as atividades ordinárias e permanentes das redes públicas e privadas de ensino, em que o ensino regular, apesar de todas as deficiências, forma anualmente milhões de novos leitores em potencial, tenho a impressão de que o que deve surgir de realmente inovador nesta década, enquanto estratégia de massa para a geração de leitores virá dos programas de alfabetização de jovens e adultos. Se não deles propriamente ditos, das atividades de leitura continuada que venham a ser desenvolvidas em ampla escala, em sequência aos cursos rápidos de alfabetização - que criam as condições necessárias iniciais para ler e escrever, mas que necessitam de continuidade. Não há dúvida de que, para quem vive na escuridão absoluta do analfabetismo, essa é uma conquista importante. O desafio das políticas públicas é enxergar, estrategicamente, que são insuficientes e se fazem necessárias ações subsequentes para que todo esse investimento humano e de capital feito não seja perdido. Nesse sentido, as oficinas de leitura e escrita – baseadas na leitura de literatura - que começam a se proliferar pelo país, pelas mãos principalmente das organizações não-governamentais e de voluntários, pode ser a grande estratégia para esses novos tempos em que a educação pode se tornar de fato prioridade nacional.
BDC - A pedagogia mostra caminhos para que leitores funcionais se transformem em leitores reais, com instrumental suficiente para atribuir sentido ao texto. A escolarização é mesmo responsável pela transformação do processo de leitura?
Amorim - A escola é, sem sombra de dúvida, um caminho seguro e talvez o mais apropriado para isso. Mas não é o único, o que é positivo. Boas experiências pelo mundo afora e no Brasil têm apontado para o fato de que a ação cultural representada por atividades que podem ir de uma programação paralela, de uma feira de livros até as oficinas culturais desenvolvidas durante o ano todo em comunidades, pode ter resultados igualmente eficazes e benéficos para a formação de leitores reais.
BDC - Que aspectos estão envolvidos no processo de leitura?
Amorim - Decodificação, percepção, interpretação, reflexão e ação - seja ela como for, inclusive para decidir a continuidade da leitura ou não.
BDC – E qual a relação entre leitura e cidadania?
Amorim - A não-leitura restringe a capacidade de perceber, decodificar, interpretar e se expressar, seja por escrito ou oralmente. Sem ela, muito raramente o indivíduo consegue desenvolver plenamente todo o seu potencial, seja ele benéfico para si apenas ou também para a sua comunidade. E dificilmente terá a autonomia necessária para exercer com plenitude a sua cidadania. Isso é muito ruim tanto para a promoção da cidadania quanto para o próprio desenvolvimento de uma nação mais justa, solidária e progressista.
BDC - Como democratizar o acesso à leitura?
Amorim - Em primeiro lugar criando condições mínimas para dar habilidade técnica para o maior número possível de brasileiros poder ler e escrever - qualquer coisa abaixo de 100% nesse quesito seria intolerável tratando-se de crianças em idade escolar. Em seguida, criando bibliotecas em todas as escolas públicas e dando um prazo para que as particulares façam o mesmo. Outra medida simples, porém profundamente inovadora, é simplesmente não permitir que daqui para frente uma única escola seja aberta no País se não dispuser de uma biblioteca escolar mínima. Ou seja, deixar claro que os livros e a leitura são algo tão fundamental para o trabalho a ser ali realizado quanto as demais dependências físicas do estabelecimento e os próprios professores. Recuperar as bibliotecas públicas existentes e zerar o número de cidades que ainda não possuem uma - são quase 600 - é outro passo que deveria ser completado com a criação de algo como 100 mil pequenos pontos de leitura. Esses pontos, que podem custar apenas alguns centavos por ano aos cofres públicos para cada cidadão atendido, seriam rapidamente absorvidos e mantidos pela própria sociedade nas periferias, associações de moradores, sindicatos, igrejas, clubes de serviço, centros culturais e - por que não? - escolas.
BDC - A política pública está alinhada à real necessidade de nossa sociedade? Ou ela só articula a posse do livro em contraposição à posse, à aquisição do conhecimento?
Amorim - Só muito recentemente começou a haver algum entendimento sobre a importância do livro na sociedade, quase sempre atrelada a questões como entretenimento, prazer, diletantismo, conhecimento e até como passaporte para ingressar no mundo das ditas altas culturas. A percepção em torno de um inovador e revolucionário papel das práticas sociais da leitura está, por assim dizer, ainda no nascedouro no Brasil - o que, entretanto, não é exatamente um privilégio nacional. A conversão desse tema em política pública no Brasil só começou a acontecer em 2006, com a adoção do primeiro Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL) da história do País. Não é, sabe-se, nenhuma panacéia que resolverá todos os males que campeiam o imenso território brasileiro. E tampouco significa que nada tenha sido feito antes. Ao contrário, a história brasileira recente é pródiga em boas e louváveis iniciativas tanto do Estado quanto da sociedade. A novidade no caso foi o país ter começado a perceber que isso é algo tão estratégico e importante para a Nação que precisa ser encarado como uma política de estado.