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30/07/2008

Tecle mudança, colaboração e solidariedade


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* Por Rodrigo Baggio

Quase todos os grandes revolucionários da História tinham menos de 30 anos, ou seja, o vigor da idade, quando ousaram transformar sonhos em realidade. Alimentados pela própria força e por uma motivação incomum, uns carregaram mais nas armas e outros nas tintas de discursos apaixonados. Gandhi, por exemplo, não partiu tão cedo para a sua batalha, mas travou-a de forma única e peculiar, usando apenas o clamor à generosidade e à razão em defesa da paz. Mas, em que pesem os excessos e as diferenças entre as revoluções, elas sempre se justificaram pela busca de um mundo melhor.

E, em alguma medida, esse mundo chegou, pelo menos do ponto de vista das conquistas materiais e dos confortos da modernidade. No plano dos relacionamentos, porém, herdamos problemas sem respostas e ainda nos atingiram novos dilemas. Hoje, estamos profundamente carentes de valores que resgatem nossa dignidade e tolerância. Precisamos de ideais que nos re-humanizem e de gente disposta a vivê-los e propagá-los. Refiro-me, sobretudo, aos jovens, cujo olhar pertence mais ao futuro do que aos apegos e paradigmas do passado. Esses jovens podem agora se expressar para um público imensamente maior, agir e disseminar suas causas com a ajuda de um forte aliado: as novas tecnologias da informação e comunicação, atuais alicerces para aquisições e trocas em diversos níveis, não apenas de informação e conhecimento.

Está claro o poder de fogo das ferramentas computacionais para contaminar, em fração de segundos, corações e mentes, espalhando vírus do bem. Para inspirar, provocar e engajar. Para estimular, construir fatos e versões e redesenhar tudo outra vez. Para fazer o planeta dialogar simultaneamente nas mais diversas línguas sobre a esperança, apesar das tragédias. Isso significa que a tecnologia nos dá as mais amplas possibilidades, inclusive a de recriar qualquer cenário, desde que se descubram os caminhos para potencializar o seu uso responsável, inovador e criativo. Tecnologias deixam de ser meros artefatos de produção e divulgação de conteúdos quando as percebemos com um olhar político e como meio de exercer, com excelência, o trabalho colaborativo.

A cultura digital é essencialmente colaborativa, mas essa característica deve ser incentivada de tal maneira que se reverta para a formação de redes sociais que possibilitem aos usuários cooperar para o bem-comum. É hora de viver e conviver em redes, de estar presente, de articular projetos que nos tornem protagonistas e, ao mesmo tempo, elos de uma corrente de mudanças. Eis o papel estratégico da tecnologia da informação nos mais diferentes campos, em nosso cotidiano e na prática da cidadania. Mas, para capitalizar tantas riquezas, para favorecer um desenvolvimento econômico e social harmônico e sustentável, é preciso estender os benefícios da informática a toda a população. O índice de exclusão digital no Brasil hoje, à semelhança do quadro geral da América Latina, contribui fortemente para a exclusão social. Pelo menos metade dos brasileiros acima dos 10 anos, segundo recentes dados de pesquisa, nunca acessou um computador, e quase 60% jamais se conectaram à Internet. Mal fazem idéia do que é o universo virtual.

O apartheid digital vitimiza os países menos favorecidos ao retirar de pessoas, em particular de jovens em busca de afirmação e oportunidades, o direito à informação, ao conhecimento, à autonomia e à participação ativa na sociedade, que são as moedas mais valorizadas atualmente. Na falta de perspectivas, muitos adolescentes e jovens tornam-se presas fáceis de estatísticas alarmantes envolvendo ações de criminalidade. Foi antevendo e antecipando-se a esse ambiente de exclusão, decorrente da expansão vertiginosa (e desigual) das TICs num mundo globalizado, que surgiu, há 13 anos, o CDI – Comitê para Democratização da Informática, ONG pioneira em inclusão digital na América Latina. Desde o começo, o CDI concentrou-se no desafio de tornar a tecnologia útil e relevante o suficiente para modificar a vida de centenas de comunidades e milhares de indivíduos, até então com poucas opções disponíveis.

Criado oficialmente em 1995, ano em que a Internet chegava ao Brasil, o CDI enxergou o potencial revolucionário das modernas tecnologias da informação e lançou mão do seu apelo e de sua força para formar gerações de agentes transformadores junto a públicos excluídos. Fez a primeira campanha de arrecadação de computadores do País, passou a difundir a cultura da informática e utilizou o computador como um eficiente catalisador de mudanças sociais. A experiência do CDI, fundamentada em diferenciais, demonstra que a apropriação da tecnologia combate a pobreza, favorece o empreendedorismo e incentiva jovens e adultos a se tornarem autores de seu próprio destino.

O modelo CDI

O Comitê para Democratização da Informática busca integrar tecnologia, educação, cidadania e empreendedorismo para fortalecer as comunidades de baixa renda na luta pela superação de sua realidade ― que foi historicamente construída e que pode, portanto, ser historicamente transformada pela intervenção do homem. Essa é a tônica do trabalho do CDI, que estimula o uso das TICs não só para desenvolver habilidades, mas para alavancar conquistas coletivas.

Para implementar sua missão, o CDI realiza parcerias com associações comunitárias e cria, junto com elas, centros de educação não-formais, conhecidos como Escolas de Informática e Cidadania (EICs). Segundo o modelo CDI, as EICs devem trocar experiências, funcionar em rede, ser auto-sustentáveis e geridas pelos próprios membros da comunidade. Até mesmo os educadores são indicados pela comunidade, o que cria uma identidade com os alunos e facilita a replicação do conhecimento.

A proposta pedagógica do CDI tem por base conceitos do educador brasileiro Paulo Freire, mundialmente reconhecido por suas teorias no campo da educação informal. Freire acreditava que a educação deveria servir à transformação social e recomendava o diálogo permanente entre educador e educando visando a uma aprendizagem participativa. De acordo com a visão freireana, os alunos devem ser estimulados a questionar o mundo à sua volta, desafiar suas condições de vida e acreditar em sua capacidade de liderar mudanças, como condição de tecerem seu próprio destino. Se apoiar essas atitudes já traz ganhos à aprendizagem, facilitá-las e sedimentá-las através das tecnologias da informação e comunicação − como faz o CDI − abre caminho para a vivência da cultura digital entre nós e, sobretudo, para atingirmos resultados ainda mais surpreendentes.

* Rodrigo Baggio é empreendedor social, fundador e diretor executivo do CDI

 
 
 
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