Por Reinaldo Pamponet Filho*
Vejo-me nesse desafio de escrever sobre esses dois temas de grande complexidade. Busco inspiração na esperança, minha melhor aliada nesse caminho. Nessa jornada meu maior alimento é o ar que respiro para oxigenar, cada dia mais, minhas idéias, em busca de um novo olhar e lucidez para tratar desse tema. Cultura e Juventude são temas que exigem de todos nós uma maneira nova de pensar e, principalmente, descartar conhecimentos que não nos servem mais como seres humanos.
Poderíamos ficar aqui defendendo várias teses a respeito do capitalismo, do liberalismo, do socialismo, mas estaríamos, assim, reforçando o dedo apontado para o outro e fugindo ainda mais de nós mesmos. Como diz o grande poeta Bob Marley, "you're running and you're running away, but you can't run away from yourself". Entre os "ismos", escolho dois, um que se baseia no retrovisor, o Egoísmo; e outro que fica no pára-brisa, que chamo de "Sevirismo" – a possibilidade concreta de se apropriar dos meios de produção e se virar no mundo. Vamos então reaprender qual o veículo mais potente do século 21: a mente.
Nos últimos anos tenho mergulhado profundamente na causa Juventude e Cultura. Nesse percurso, tenho aprendido cada dia mais que sei cada dia menos sobre o tema que está em construção. Minha primeira constatação é que nem sempre sou capaz de dar respostas, mas posso abrir caminhos e formular provocações verdadeiras. Pensar em possibilidades concretas e não apenas em soluções. Também aprendi que juventude não é uma questão ligada somente à idade. Tenho visto pessoas de 18 anos que me assustam pela sua velhice. Percebo que a velhice como atitude está muito relacionada ao processo de formatação do ser humano. Quanto mais formatado, mais velho... quanto mais em formação, mais jovem. Acreditem, isso pouco tem a ver com idade. Juventude, pra mim, é ser sempre um aluno da vida; e Cultura não deve ser confundida com erudição.
A globalização trouxe benefícios incríveis para o mundo e, como tudo que anda muito rápido, traz consigo uma tendência a menosprezar alguns dos problemas reais do mundo moderno. Existem muitos desafios e precisamos imprimir um discurso um pouco mais otimista, pois vivemos um momento verdadeiro de mudança, crucial para a humanidade. A globalização foi capaz de criar uma lógica financeira global, trouxe a "globalização econômica", mas não foi capaz de gerar uma "globalização social". A cultura é um caminho possível para essa evolução social. A Cultura é, sim, o nosso grande aliado e precisamos propor modelos que reforcem a Cultura como agente econômico - Economia da Cultura. Precisamos com isso formular novas hipóteses e voltar a conviver melhor com o empirismo para buscar o novo.
Chamo a atenção para a necessidade de trabalharmos a favor da democracia econômica, criar possibilidades econômicas concretas para a toda a humanidade. Isso passa por repensar conceitos como Propriedade, Consumo e, principalmente, Riqueza de uma forma diferente da que estamos acostumados.
Encontro um caminho concreto para essa evolução no binômio Juventude e Cultura. São conceitos que superam a unicidade e carregam inúmeras possibilidades. Se juntarmos os dois não chegaremos na matemática do 1+1=2, mas 1+1=3, ou até mais. Isso porque Juventude é inovação e Cultura, o caminho que leva ao refinamento humano pleno.
Infelizmente, a grande maioria de nós ainda dirige olhando pelo retrovisor, buscando referências que não nos servem mais. Boa parte dessas referências criou uma sociedade que valoriza o acúmulo de riqueza ligada apenas aos bens materiais e menospreza o cuidado com o ser humano, as relações, os ambientes e, como resultado, colocam em xeque a dignidade e felicidade do ser humano.
Recomendo um exercício de humildade de todos com mais de 35 anos, que freqüentaram escola e/ou faculdade onde não existia internet, para perceber o tamanho da mudança. Vocês sabem o que é ter 18 anos hoje, possivelmente nunca ter visto uma enciclopédia física, e ter a possibilidade de se conectar com o mundo e buscar espaços de aprendizagem?
A lógica do conhecimento está mudando do lugar de ensino para o lugar de aprendizagem, e vem daí a necessidade de "rebutar" todo o sistema chamado de ensino para um sistema de aprendizagem. Esse é um tema bastante amplo e importante, por isso aqui me limito a fazer uma provocação, sendo necessário um outro artigo para aprofundar a idéia. Mas, sendo coerente com meu discurso, gosto sempre de trazer algumas possibilidades junto com minhas provocações. Nas situações de grande impasse recorro a um abordagem muito interessante que um dia me foi apresentada, uma abordagem de reflexão que nos leva à ação:
Que Bom! Que Pena... Que Tal?
Que bom! A revolução tecnológica está aproximando o improvável, exigindo de todos nós um discurso mais honesto. Hoje, um jovem da periferia de Salvador fala rotineiramente com uma jovem dinamarquesa e consegue até manter um vínculo afetivo a espera do próximo encontro. Um arquivo musical para lá, uma voz para cá, um ajuste, uma boa conversa e uma música está pronta. O acesso à informação vem quebrando as barreiras do conhecimento. O ambiente de conhecimento hoje é outro, o modelo de escola e ensino está numa crise sem precedentes. O saber está sendo trabalhado de uma outra forma, fruto da busca do “bicho” homem por querer mais. Hoje, estamos diante de um dos melhores tempos da humanidade, possibilidade concreta do novo e de nos sentirmos e vivermos melhor.
Que pena... Essa velocidade não está contaminando o status quo como deveria. Um certo ar de frustração está no ar. Os modelos organizacionais oriundos do século passado ainda imperam. Hierarquia, acúmulo de poder e riqueza, destruição do meio ambiente e guerras são o saldo verdadeiro que temos hoje de toda essa trajetória. Alguns ainda insistem em propagar esse modelo. Dizem que o Brasil vive um momento maravilhoso de expansão de capital e a sociedade brasileira em uma guerra cada dia mais explícita. O contingente de seguranças privados do País é pelo menos o dobro de todo o contingente de segurança oficial. O dinheiro compra a blindagem em todos os sentidos: do carro, da casa, dos filhos. Essa economia tem gerado um incrível número de bilionários e a ascendência econômica de classes menos privilegiadas muito às custas de programas assistencialistas, resquícios de um Brasil "Casa Grande e Senzala". Quantos jovens ainda vão precisar morrer para que a nossa sociedade se dê conta de aprofundar mais a questão do gargalo social que é nossa juventude?
Que tal? Levarmos isso mais a sério? Somente 10% das vagas no mercado formal de trabalho são ocupadas pelos mais jovens. Falta escola? Falta! A escola esqueceu o jovem e o jovem esqueceu a escola. E a mãe da periferia lutando para não deixar - literalmente - a casa cair. No pragmatismo que lhe é necessário, ela se pergunta: “Estudar para quê? Uma escola que não garante nada, um modelo falido que não vai dar condição para que meu filho entre numa faculdade ou arrume um trabalho decente e digno. Então, ele que vá logo trabalhar.” Um ciclo vicioso que exige um novo pensar.
Que tal pensarmos mais em possibilidades e menos em soluções que muitas vezes nos paralisam ou criam propostas totalitárias e desumanas? A maioria das soluções que prevêem uma certa escala menosprezam a cultura e o lado humano e produzem um ser humano infeliz e pouco amoroso.
Que tal abrirmos mão do nosso conforto irreal e partirmos para a ação?
Juventude e Cultura - o futuro sem abrir mão da raiz, do chão, da referência. Nossas maiores riquezas que, melhor recombinadas, indicam um caminho mais promissor. Volto a respirar mais fundo. Mas convoco todos a questionar: a nossa sociedade está disposta a abrir mão de escalar ainda mais sua "riqueza", ou repensar verdadeiramente que "riqueza" é essa? Nosso País está preparado para essa abertura que o novo modelo de sociedade exige? Filhos da elite colaborando em pé de igualdade com jovens menos favorecidos economicamente, com menos conhecimento formal adquirido, mas talvez com mais sabedoria? Quantos de nós está preparado para escutar mais os filhos do que falar o que devem fazer ou como devem agir?
Não posso deixar de falar do componente tecnológico, que viabiliza essa evolução necessária. Essa nova sociedade, em preparação para ser uma sociedade sábia, vai transformar o consumidor em um "pró-sumidor" - aquele que usa o meio digital para produzir e fazer muito mais upload do que download, abrindo a oportunidade de voz para todos; uma sociedade que vai transformar a pirataria em "paritaria" – proveniente do conceito "peeracy", uso efetivo do peer to peer na produção , abrindo caminho para os processos que buscam paridades. Por exemplo, ao invés de sermos apenas consumidores, nos dedicaríamos a também produzir nosso sustento – ainda que sustento de alma; ao invés de nos protegermos atrás de um direito autoral ultrapassado, estaríamos com os nosso pares, colaborando e produzindo juntos, e assim criando um novo modelo de riqueza? Já imaginaram a possibilidade que isso traz?
Juventude + Cultura = Cultura Livre
Cultura Livre remete a toda a possibilidade de renovação que precisamos. De veículos, de ares, de modelos, de alma, de equilíbrio, de sistemas e de refinamento... humano.
Salve o século XXI que ai está! Muitos ainda insistem em pensar com o século que se foi, mas sejamos responsáveis e protagonistas dessa evolução e tenhamos a Juventude e a Cultura como esperança concreta de um caminho sustentável e possível.
* Reinaldo Pamponet Filho é fundador e coordenador geral do Instituto Eletrocooperativa