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08/05/2008

Cultura e juventude


Sérgio Ricardo*
Artigos 

O jovem do século 21 trocou os carros de som e as panfletagens do passado pela adesão a movimentos culturais. A cultura neste século passou a ser a principal forma de expressão política do jovem que se apropria cada vez mais de seus elementos para fazer valer a sua opinião. Então, quem ainda acha que a juventude de hoje não é politizada, vai ter a oportunidade de conhecer melhor os jovens dos novos tempos na série de artigos que tem início nesta edição, baseada no tema Cultura e Juventude. Para começar, convidamos o coordenador da Associação Metropolitana de Hip Hop de Pernambuco, Sérgio Ricardo, a falar sobre a importância do Hip Hop para a construção da cidadania e do protagonismo juvenil.

Movimento cultural, político e social hip hop: arte, cidadania e protagonismo juvenil

A discussão aprofundada deste tema é de fundamental importância para o movimento cultural, político e social Hip Hop e seus rumos para o futuro próximo. A utilização dos elementos artísticos do Hip Hop (MC, Dança de rua, graffiti e Dj), como veículo aglutinador da juventude, para a construção de um verdadeiro processo de cidadania dos jovens de periferia, deve ser encarado como o maior desafio da história do movimento.

É importante destacar como o Movimento Hip Hop pode desenvolver o processo de uma cidadania plena da juventude pobre e como deve ser a sua relação com outros movimentos populares, que também trabalham para construir a cidadania nas suas áreas específicas de atuação.

Mas antes de tudo, o que é cidadania? O que se entende por cidadania? Hoje, a opinião predominante é o entendimento do conceito de cidadania como um processo que visa a formação de cidadãos críticos, cientes dos seus direitos e deveres e altamente participativos da construção política de seu país, Estado ou município. Cidadãos que realmente se importam com os rumos que a sociedade, na qual estão inseridos, está tomando. Cidadãos que se preocupem uns com os outros. Inclusive um valor que deve ser cultivado no processo de cidadania é o da solidariedade. Resumindo, cidadania seria o nível de qualidade que um cidadão apresenta e esta definição é aceita como exercício da cidadania plena.

Quando se diz que o Movimento Hip Hop contribui com o processo de cidadania dos jovens, não necessariamente tem-se em mente o abrangente conceito de cidadania acima descrito. Porém, a cidadania no Hip Hop, hoje, quer dizer: aumento da auto-estima dos jovens das camadas populares, envolvimento com a produção de cultura, internalização individual de uma identidade coletiva, como a que o Hip Hop proporciona e, conseqüentemente, e o combate à ociosidade, além da efetivação da inclusão social.

É evidente que para o Movimento Hip Hop contribuir na construção da cidadania plena da juventude pobre como um todo, primeiramente, deve construí-la internamente, isto é, dentro do Movimento com seus próprios protagonistas.

Para isso, o Hip Hop vem consolidando o seu compromisso com a busca de conhecimento, responsabilidade social e participação política na sociedade; o que vem acontecendo cada vez mais no Brasil, principalmente em Estados como Pernambuco, Maranhão, Ceará, Rio de Janeiro, Rio Grande Sul e São Paulo, onde o Movimento é traduzido a partir da organização e formação de entidades locais, a exemplo da Associação Metropolitana de Hip Hop, que realiza trabalhos sociais com os quatro elementos artísticos do Hip Hop nas periferias.

Elementos como o rap, a dança de rua, o grafite e o Dj representam o lado lúdico, artístico, cultural do Movimento Hip Hop e funcionam como mobilizadores da juventude pobre, que facilmente se identifica. Quando acompanhado pela formação política, o Movimento pode significar a ascensão de sujeitos ativos, capazes de lutar por um mundo sem opressores e oprimidos.

Mas qual seria a importância da promoção da cidadania dentro do Movimento Hip Hop? Exatamente para que se consiga colocar em termos práticos o que tanto se fala nas letras de rap, a importância está na construção de uma sociedade justa, solidária, onde todos os cidadãos possam viver com dignidade.

E por qual tipo de cidadania o Hip Hop se orienta? Pela cidadania de defesa de um povo ciente dos seus direitos e deveres, especialmente os da juventude. O Movimento entende que o grande obstáculo ao desenvolvimento das camadas populares e periféricas seja a falta de políticas públicas. E o inimigo seria a exclusão social, que age por meio da opressão e da exploração, concentrando toda a renda nacional nas mãos de poucas famílias e submetendo os pobres (a maioria da população) a condições de vida subumanas, com desemprego, fome, sucateamento da educação e da saúde pública, etc.

O Movimento Hip Hop procura, primeiro, entender como a exclusão social se mantém, estudando-a profundamente, para depois assumir como principal missão a organização da juventude pobre da periferia para que esta possa exigir e fazer acontecer uma transformação radical no sistema político-econômico vigente. O Hip Hop tem se organizado e trabalhado para promover a cidadania plena e incentivado a juventude oprimida a lutar declaradamente contra a exclusão social. Esta luta vem se dando de forma clara, tendo como meta final a construção de uma nova sociedade baseada em valores humanitários. Desta maneira, o Hip Hop está, por meio da arte, fortalecendo a cidadania plena dentro do movimento e fora dele e, conseqüentemente, participando da construção de um novo mundo. Um mundo baseado na liberdade, igualdade e justiça.

*Mais conhecido como “sociólogo da favela”, Sérgio Ricardo é sociólogo e coordenador da Associação Metropolitana de Hip Hop de Pernambuco.

 
 
 
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