O som já nasce da natureza, com o vento soprando nas árvores, os trovões, a fala dos animais. A música já vem desde os primórdios com o canto dos pássaros. O homem aos poucos vai procurando conversar com essa natureza e, ao tentar imitá-la, cria seus primeiros instrumentos, que são as folhas de árvores dobradas, por onde eles conseguem tirar um assobio ou com apitos de barro e flautas de bambu. Assim se aperfeiçoa e passa não somente a imitar sons mas também a criá-los, de acordo com seu sentimento, sua vivência, com o mundo que o cerca.
Quando os meios de comunicação eram pouco desenvolvidos, a voz do homem comum corria livre e, de boca em boca, o que permitiu que o seu canto, a sua vivência, formasse uma cultura forte e plural. Nosso país é fantástico na diversidade de ritmos que traduzem diferentes formas de estar no mundo.
O desenvolvimento dos meios de comunicação de massa quase alijou essa cultura musical popular, isolando-a em suas próprias localidades. Esse desenvolvimento veio junto com todo um processo de controle da informação e assim, ficou instaurado todo um perverso processo de alijamento das camadas populares tanto dos benefícios do desenvolvimento econômico (nosso país é dos piores em relação à distribuição de renda) quanto da participação desses meios de comunicação, falando de sua maneira de ver e viver seu mundo.
Então, partimos desse ponto: concentração da riqueza e concentração dos meios de comunicação de massa.
As camadas mais pobres estabeleceram formas próprias de participação na construção deste país, não apenas como mão-de-obra. A linguagem musical, por exemplo, é uma dessas formas. Através da música, o trabalhador comum se fez presente e marcou profundamente a cultura da sociedade brasileira, “falando” de sua maneira de ver, viver e pensar o mundo onde está inserido.
A música não apenas “fala” a partir de uma inserção no mundo, mas ela é das poucas atividades integradoras numa sociedade cada vez mais excludente e individualista. Essa é uma questão que, na minha experiência como músico e pesquisador junto às camadas populares, seja na Baixada Fluminense, no semi-árido da Bahia ou no Vale do Jequitinhonha em Minas Gerais, se mostrou o ponto mais importante de todo esse processo iniciado no final dos anos setenta, início dos oitenta. Ou seja, a função social da música enquanto linguagem de afirmação de uma coletividade.
Esses trabalhadores comuns que têm o dom de serem cantadores e poetas/compositores são, no caso brasileiro, a caixa de ressonância de um povo e, por isso, são agentes fundamentais na reestruturação de uma comunidade, de um município, de um Estado. São atores sociais que têm a capacidade de aglutinar aqueles setores excluídos, “falando” de seu cotidiano, de suas festas, de suas tradições.
Quando os encontrei dispersos na Baixada Fluminense, no final dos anos setenta, sua capacidade de articulação, sua auto-estima e reconhecimento da comunidade eram nulos. Encontrei-os na mais profunda solidão. Meu trabalho foi mergulhar em suas vidas, nos botequins e biroscas e encontrá-los no seu cotidiano. A qualidade de seus versos e a força das melodias de seus sambas não faziam parte dos padrões ditados por uma mídia que ignorava as mínimas noções de brasilidade. Meu papel: reuni-los, valorizá-los enquanto relatores da vivência de uma população que, como eles, não se valorizava.
O mesmo processo encontrei nas populações de trabalhadores rurais no sertão e recôncavo da Bahia. Passei três anos pesquisando nas suas roças, as cantorias, festas, seus processos criativos, seus ritmos diversos e suas fantásticas músicas de trabalho. São Reisados, Chulas, Sambas de Roda, Bois de Roça, Batas de Feijão, entre tantos outros ritmos diferenciados. Também eles não valorizavam sua música, também suas comunidades os qualificavam de “tabaréus”, também sua juventude muitas vezes os criticavam, tendo como valores as referências dos programas de televisão que passavam a fazer parte de suas vidas. Mesmo assim, eles continuavam a cantar. O canto servia para amortecer a dureza do trabalho de sol a sol nas lavouras, e assim essa música ficou recolhida às roças e nas galhofas da juventude. Meu trabalho? Afirmar a beleza daqueles cantos, afirmar o fantástico mundo rural que elas reportavam, tão brasileiro quanto os sambas dos compositores da Baixada Fluminense.
Interessante que esse processo se repetiu tanto na Baixada, em meados dos anos oitenta, como no semi-árido baiano, no final da década de oitenta, e nas pequenas cidades e vilas ao longo do Vale do Jequitinhonha, no início dos anos noventa.
Os três trabalhos foram registrados em CD’s: Movimento de Compositores da Baixada Fluminense (Rio de Janeiro), Da Quixabeira Pro Berço do Rio (Bahia) e Por Cima das Aroeiras (Vale do Jequitinhonha).
Nos três casos, a emoção por parte dos compositores e cantadores foi tão forte, que palavras jamais chegarão perto do que expressaram. Foi uma explosão de alegria e a certeza do valor de seu trabalho musical. A auto-estima aumenta, suas comunidades passam a reconhecê-los, se unem, se divertem, se integram. Todos esses fatores levaram à formação de organizações que defendem, ampliam e promovem sua cultura. Assim, na Baixada do início de 1991, é criada a Associação do Movimento de Compositores da Baixada Fluminense. Na Bahia (sertão e Recôncavo) de 1997 é organizado o Movimento da Quixabeira. No Vale, não consegui dar continuidade por falta de recursos mínimos.
Na Baixada como desenvolvimento do processo, inicia-se a partir de 1998 uma escola de música para jovens e crianças daquelas comunidades carentes, com cerca de 170 alunos, que hoje tem povoado aquelas comunidades com músicos ligados às nossas tradições musicais, crianças que passam a conhecer, por meio da música, um pouco de nossa história e de nossos autores mais importantes do Samba e do Choro, como Pixinguinha, Noel Rosa, Tom Jobim, Ismael Silva, Monarco, Cartola, Chiquinha Gonzaga, entre tantos outros. Podemos ver os jovens e os adultos reunidos em rodas de samba em sua sede.
No sertão e Recôncavo, desde 1997, o Movimento da Quixabeira organiza uma festa anual –a Festa da Quixabeira. Hoje, esse movimento está presente em mais de 25 municípios, aumentando gradativamente sua presença no cenário da cultura regional baiana. Nessas Festas aos poucos fomos vendo os jovens chegarem, inicialmente tímidos, aos poucos se soltando e dançando, e finalmente a partir de 2004, participando ativamente junto com os mais velhos, num processo fantástico de união e reafirmação de sua cultura.
Toda essas experiências nos indicam que estamos enfrentando os principais desafios deste início de milênio que são: o combate à exclusão social, ou seja, um processo de distribuição da riqueza gerada por todos, e o resgate da cidadania, o que implica fundamentalmente no fortalecimento da democracia – não apenas enquanto processo eleitoral – mas principalmente na democratização da informação, no sentido de construirmos uma sociedade mais igualitária – igualdade de oportunidades aos seus cidadãos – e solidária.
Bernard von der Weid é músico instrumentista, compositor e pesquisador. Profundamente envolvido com questões ligadas ao resgate da cidadania e o reforço da presença da cultura popular no cenário da sociedade brasileira, Bernard idealizou o projeto Educação e Expressão Popular – a linguagem musical, a A.M.C. - Associação do Movimento de Compositores da Baixada Fluminense, o Movimento da Quixabeira e a ONG Sabiá – Arte e Cultura Popular Brasileira.