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09/08/2007

Para que serve a arte


 

Intrínseco ao homem, o processo de criação artística funciona como expressão de sua individualidade e relação com o todo. Isso desde priscas épocas, quando desenhos mágicos traçados em cavernas, como Lascaux na França, tomavam a forma de portais para a representação da vida. Sempre o indivíduo e a sociedade, o micro e o macro, o real e o místico, a angústia e a excitação. A arte não tem um papel concreto, mas em toda a sua abstração decifra, representa e legitima os mais diversos sentimentos humanos.

Como costumava dizer Jean Cocteau, “A poesia é indispensável. Se eu ao menos soubesse para quê…”. Nesta frase concentra-se um paradoxo intuído e sugerido por aqueles que buscam consolidar o valor artístico ao longo da evolução humana, vital para uma discussão mais aprofundada sobre o tema. 

A partir dessa edição, iniciamos uma série de artigos, inspirada no texto A beleza do humano, nada mais, de Ferreira Gullar, sobre a função da arte. Para potencializar a reflexão, adotamos uma linha interdisciplinar que vai apresentar a arte, sob o ponto de vista da filosofia, da psicologia, da poética, da economia e da antropologia, entre outros. Acompanhe!


A beleza do humano, nada mais

Ferreira Gullar

Confesso que, espontaneamente, nunca me coloquei esta questão: para que serve a arte? Desde menino, quando vi as primeiras estampas coloridas no colégio (que estavam muito longe de serem obras de arte) deixei-me encantar por elas a ponto de querer copiá-las ou fazer alguma coisa parecida.

Não foi diferente minha reação quando li o primeiro conto, o primeiro poema e vi a primeira peça teatral. Não se tratava de nenhum Shakespeare, de nenhum Sófocles, mas fiquei encantado com aquilo. Posso deduzir daí que a arte me pareceu tacitamente necessária. Por que iria eu indagar para que serviria ela, se desde o primeiro momento me tocou, me deu prazer?

Mas se, pelo contrário, ao ver um quadro ou ao ler um poema, eles me deixassem indiferente, seria natural que perguntasse para que serviam, por que razão os haviam feito.

Então, se o que estou dizendo tem lógica, devo admitir que quem faz esse tipo de pergunta o faz por não ser tocado pela obra de arte. E, se é este o caso, cabe perguntar se a razão dessa incomunicabilidade se deve à pessoa ou à obra. Por exemplo, se você entra numa sala de exposições e o que vê são alguns fragmentos de carvão colocados no chão formando círculos ou um pedaço de papelão de dois metros de altura amarrotado tendo ao lado uma garrafa vazia, pode você manter-se indiferente àquilo e se perguntar o que levou alguém a fazê-lo. E talvez conclua que aquilo não é arte ou, se é arte, não tem razão de ser, ao menos para você.

Na verdade, a arte - em si - não serve para nada. Claro, a arte dos vitrais servia para acentuar atmosfera mística das igrejas e os afrescos as decoravam como também aos palácios. Mas não residia nesta função a razão fundamental dessas obras e, sim, na sua capacidade de deslumbrar e comover as pessoas.

Portanto, se me perguntam para que serve a arte, respondo: para tornar o mundo mais belo, mais comovente e mais humano.


Ferreira Gullar é cronista, ensaísta, teatrólogo, crítico de arte e um dos maiores poetas brasileiros. O maranhense é autor de livros como Poema Sujo e Dentro da Noite Veloz, e de ensaios como Vanguarda e Subdesenvolvimento e Argumentação Contra a Morte da Arte.

 
 
 
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