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09/05/2007

Efeverscência Cultural


Por Esther Hamburger
 

Saraus literários, oficinas de audiovisual, shows de rap, projetos de inclusão digital, cooperativas de produção de moda, são alguns exemplos de iniciativas de democratização cultural que agitam os morros e bairros populares nas grandes cidades brasileiras. Essa efervescência redefine fluxos anteriormente concebidos unidirecionalmente, de centros para periferias, colocando mesmo em questão a validade dessa geopolítica da produção do conhecimento.  O mapeamento dessas iniciativas no âmbito do cinema e da televisão é sugestivo para se pensar nos desafios envolvidos na democratização do acesso às informações e artes.

Uma série de filmes de ficção e documentários situados na chamada “retomada” vêm introduzindo novas perspectivas sobre um universo em rápida transformação. Precursor desse movimento, Joaõ Moreira Salles inseriu, a partir de Notícias de uma guerra particular (1999), imagens sobre a violência nos morros cariocas no chamado cinema da retomada. Desde então, a visibilidade adquirida por segmentos e paisagens, até há pouco em larga medida invisíveis, gerou experiências a um só tempo políticas e estéticas sobre como falar do universo da pobreza de maneira a não reforçar - e se possível a desarticular - estigmas. 

Palace II, Cidade de Deus e Cidade dos Homens, realizações de equipe encabeçada por Fernando Meirelles; O Invasor de Beto Brant, Antonia de Tata Amaral, são exemplos de abordagens diferentes, no âmbito do cinema e da TV, produzidos por cineastas consolidados.

As opções estilísticas e formas de difusão desses trabalhos permite reconstituir um multiálogo em torno do que pode ser caracterizado como “a disputa pelo controle dos mecanismos de construção de representações” ou ainda, a disputa pela definição de quem representa o que, como e aonde.

Os estilos variam, mas de uma forma ou de outra cidadãos moradores de bairros pobres vêm transformando aquilo que os estigmatizou em matéria prima, elemento potencializador de mudança de situação. No campo da produção audiovisual, por exemplo, Os Racionais estão lançando, em algumas semanas, um DVD. O trabalho vem acrescentar uma voz a um corpo múltiplo e diverso de filmes veiculados em Festivais, no cinema, na TV a cabo, na TV aberta, e em circuito alternativo. Esses trabalhos contrastam entre si e expressam buscas por formas de expressão que ajudem a superar discriminações convencionais.

A discordância da maneira pela qual o universo da periferia é apresentado no cinema  estimulou uma série de produções alternativas, também polêmicas entre si e diversificadas, a partir de núcleos de produção audiovisual situados em bairros diversos da periferia. Falcão, meninos do tráfico de MV Bill e Celso Athayde, veiculado pela rede Globo em março de 2006 é um exemplo. Inúmeros curtas-metragens, dirigidos por jovens realizadores, alunos de oficinas de audiovisual na periferia, como Defina-se, de Daniel Hilário, Kelly Alves e Cláudio de Souza;  e os trabalhos da produtora Arroz, Feijão, Cinema e Vídeo são alguns exemplos, entre muitos outros, de uma profusão de filmes realizados por artistas da periferia interessados em participar da construção das imagens de seu universo.

Iniciativas bem sucedidas acenam com inclusão plena via os mais diferentes campos da cultura. A atual onda de produção popular ocorre de maneira fragmentada, com apoio eventual de ONGs e agências públicas. A continuidade é um desafio permanente. A convivência de projetos diferentes é outro. Idéias que facilitem a articulação de iniciativas afins podem ajudar a constituição de redes capazes de energizar carcomidas infra-estruturas institucionais, especialmente redes públicas de educação e cultura.

Essa dinâmica polariza a vida contemporânea, redefinindo o estatuto da cultura, que adquire caráter estratégico – no Brasil e no mundo. Mas aqui, agudas desigualdades sociais que sobrevivem ao longo dos séculos, apesar das transformações econômicas e tecnológicas, tornam a cultura região especialmente sensível. 

O contraste entre a falta de interesse que cerca as instituições de ensino formal e a energia que move projetos culturais alternativos é sugestivo. Há algumas semanas a divulgação dos resultados do Enem, exame que avalia o desempenho escolar de alunos do segundo grau no Brasil inteiro, provocou uma discussão salutar sobre o fraco resultado obtido pelos estudantes de escolas públicas, quando comparado ao dos estudantes de escolas privadas.

Vale observar, em uma pequena digressão, que há algumas décadas não havia Enem para permitir a comparação do desempenho dos alunos das diversas escolas brasileiras. E mais, havia uma quantidade significativa de jovens em idade escolar fora da escola. Hoje a discussão mudou de patamar.

O desafio a ser enfrentado agora já não é o da falta de vagas, mas o da baixa qualidade do ensino nas escolas públicas, instituições ineficientes que não conseguem se aproximar do universo dos alunos de maneira a facilitar a superação do estigma de ignorância que muitas vezes os marginaliza. Nessas escolas o ensino se viu reduzido quase que a uma função disciplinar, muito distante da idéia libertadora da produção de conhecimento.

Há escolas fracas. Como outras instituições públicas, e o próprio Estado, elas enfrentam uma crise sem precedentes de credibilidade e financiamento. Deparam-se também com a violência que ameaça a própria sobrevivência de jovens em idade escolar, especialmente meninos  negros. Em contraste, diversos núcleos culturais aqui mencionados prometem, e muitas vezes conseguem, se realizar como pólos de capacitação profissional e artística.

A pergunta que se coloca é: não seria possível pensar linhas de valorização da cultura que atuassem junto às escolas de maneira que as escolas pudessem ajudar projetos culturais a ganhar certa estabilidade e projetos culturais pudessem ajudar as escolas a sintonizar a imensa sede de saber dos alunos?

Instituições não governamentais, como a Votorantim, se dispõem a atuar na área cultural. Diversos níveis da administração pública também investem nessa área, com programas de fomento, como o VAI da Prefeitura do município de São Paulo, ou os Pontos de Cultura do governo federal. Esses programas oferecem uma estrutura mínima a iniciativas pontuais que encontrariam enorme dificuldade de sobrevivência sem eles. Há iniciativas públicas e privadas, governamentais e não governamentais, mais ou menos bem sucedidas.

Pensar em democracia plena no Brasil de hoje significa pensar em potencializar e articular iniciativas que vêm produzindo uma pluralidade de manifestações, prometendo profissionalizar e melhorar as condições de vida de amplos segmentos da população.

O desafio é promover iniciativas estáveis e com continuidade que permitam o acesso e a incorporação de amplos segmentos da população a informação e cultura. As carências são imensas. A abertura para a diversidade de iniciativas pode contribuir para a democratização plena da sociedade brasileira.

Esther Hamburger é crítica e ensaísta. É PhD em antropologia pela Universidade de Chicago, professora e atualmente chefe do Departamento de Cinema, Radio e Televisão da ECA-USP, pesquisadora do CNPq e do CEM. Foi professora visitante da Universidade de Michigan e pesquisadora do Cebrap. É autora do livro O Brasil antenado: a sociedade da novela (Zahar, 2005), além de inúmeros artigos publicados em jornais e revistas especializadas.

 
 
 
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